
O livre arbítrio no dicionário Aurélio refere-se principalmente às ações e à vontade humana, e pretende significar que o homem é dotado do poder de, em determinadas circunstâncias, agir sem motivos ou finalidades diferentes da própria ação. Toda vida humana é dotada de livre arbítrio, de executar ações por si só. Todas as ações envolvem uma escolha previa, não existe destino. Escolhemos desde cedo em nossas vidas e assim todos os dias pela manhã se nos levantamos da cama para mais um dia ou se dormimos mais um pouco e passamos o dia colhendo os frutos dessas escolhas. Assim todos os grande momentos de nossas vidas passam por essas escolhas que muitas vezes nem nos damos conta de que foi feita.
O casamento é uma delas. A escolha pelo casamento acontece muito antes. A minha havia sido feita há muitos anos atrás. Talvez já tivesse escolhido quando criança, enquanto arrumava as bonecas com o vestido branco para o grande dia. Aos 20 isso já era certeiro para mim, embora não tivesse a menor idéia do trabalho que dá. Dizem os mais velhos que essa escolha era mais fácil antigamente, bastava a pessoa ser boa para você, respeitável e trabalhadora. Hoje as pessoas procuram parceiros que possam preencher uma série de requisitos: boa situação financeira, boa aparência, mesmo sonhos, mesmo objetivos, possuir carro, apartamento, celular, computador, etc. Uma lista bem grande na maioria das vezes e tem gente que esquece o que é mais importante: o respeito, o carinho e o encantamento pelo outro. Não posso dizer que minha primeira vez foi um erro, pois foi meu primeiro casamento foi o que possibilitou o segundo, mas foi um aprendizado intenso e sofrido.
Sonhei com um parceiro para a vida toda, conta conjunta no banco e no dia a dia. Lutei durante os 3 anos e meio de namoro contra a distância física e pela manutenção de um clima sempre bom entre nós. Que foi mantido durante o 1 ano e meio de casados. Até o momento que percebi que estava carregando um relacionamento sozinha. Enquanto eu tentava nortear a vida a dois para a formação de uma família, ele fazia projetos de estudos no exterior. Larguei meu emprego de Psicóloga escolar e me mudei para SP. Escolhas pensadas e muito bem refletidas. Sempre que precisávamos tomar alguma decisão juntos, defendia a segurança para a existência dos filhos, mas a ação era dada pelos planos dele. Se eu quisesse filhos era bom que fosse trabalhar. Deveria comer menos doces, ser menos preguiçosa, mais esforçada, mais econômica... sempre muitas críticas, sempre os amigos dele e os programas dele. Sou formada com pós graduação e fui trabalhar num Buffet como assistente, num emprego que fui humilhada pela amiga dele, só para ter um emprego, colaborar com a casa e deixar de depender exclusivamente do marido. Com apenas 6 meses da casada fui ao casamento de uma amiga sozinha, em outra cidade e foi uma das coisas mais estranhas que me vi fazendo, triste perceber que foi apenas a primeira de tantas outras coisas que fiz sem ele. Cheguei a pensar que um filho salvaria o casamento. Tentamos sem sucesso durante alguns meses até eu me dar conta de que eu não tinha um parceiro, ele não estava comigo. Era hora de me valorizar mais. Era preciso escolher ser como muitas por aí que vivem um casamento fracassado para manter uma vida confortável ou estar sozinha de novo em busca de uma vida feliz e uma família como eu sonhei.
Não foi fácil, houveram diversas tentativas de manter aquele relacionamento e tentar elevá-lo para algo melhor. Dentre as minhas tentativas estiveram muitos almoços especiais sem nenhum retorno afetivo, muita conversa e muito entendimento. Depois de um ano de casamento sem comemoração e uma viagem (que era o roteiro dos sonhos para lua de mel) feita com a família dele, e que foi motivo de grande atrito entre nós, já era o suficiente para eu perceber que as minhas escolhas de todos os dias estavam sendo direcionadas para o que eu queria e elas não se encontravam com as dele. Foi um processo sofrido: a nossa conversa sobre o que deveríamos mudar para continuarmos juntos, as lembranças do que havia dado certo e o que deveria ser mudado em nós dois para restaurar o que acreditávamos quando dissemos sim e pude perceber mais claramente o desprezo dele em relação aos meus sentimentos.
Quando eu parei de me esforçar, percebi que ele não me procurava mais. E depois percebi que o que mais me doía era ver que não tinha sido capaz de manter um casamento. A sociedade sempre despeja uma grande responsabilidade na mulher, por isso é comum essa sensação de fracasso quando o casamento acaba. Que todos aqueles sonhos estavam sendo desfeitos e talvez nunca os realizasse.
Hoje superei isso, desejo que o meu ex seja muito feliz, que encontre uma mulher melhor do que o que eu fui: que ela seja tão paciente e tão disposta, que sonhe os sonhos dele de viajar para o exterior, que o incentive e o apóie na mudança de profissão, tantas e quantas vezes ele quiser mudar, que seja budista e vegetariana junto com ele e o mais importante: que ela olhe para ele para o resto da vida com o mesmo brilho nos olhos e encantamento dos primeiros dias. O fato de o primeiro não ter dado certo me deu mais clareza do que deveria valorizar nas minhas próximas relações. E o que no inicio parecia um erro se tornou um acerto.
Se pensarmos assim não existe escolhas erradas, mas é preciso escolher bem todos os dias e assimilar o aprendizado do que não deu certo. E todos os dias não desejo estar em outro lugar se não onde estou. Amo o meu trabalho, a minha profissão, meu companheiro, meu filho, minha casa, meus amigos, minha família e o meu agora. Deve ser por isso que se chama presente.